
29/07/2021
Pesquisadores brasileiros descobriram comportamentos inusitados e novos locais de ocorrência do boto-cor-de-rosa/boto-vermelho (Inia geoffrensis) e de botos do gênero Sotalia (que pode ser o boto-cinza, Sotalia guianensis, ou o tucuxi, S. fluviatilis), no estado do Amapá. Um dos pontos curiosos da pesquisa foi achar botos em um rio da região sem ligação com outros corpos d´água. Como ele teria chegado ali?
O boto-cor-de-rosa é considerado em perigo de extinção pela lista do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) de espécies ameaçadas. O Sotalia guianensis é tido como vulnerável e o S. fluviatilis é tido como quase ameaçado.
O estudo, publicado recentemente na revista Aquatic Mammals e que teve participação de pesquisadores do Instituto Mamirauá, do Iepa (Instituto de Pesquisa Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá) e do WWF-Brasil, agrupou dados sobre a localização dos cetáceos de água doce em questão entre 2008 e 2020, no Amapá.
Para descobrir onde habitam esses animais, além de viagens de campos, os pesquisadores conduziram centenas de entrevistas com a população local. Também foram entrevistados outros pesquisadores, coordenadores de parques da região e autoridades.
Os cientistas conseguiram identificar 148 registros desses ameaçados cetáceos na região e, a partir disso, foi possível determinar a área de ocorrência das espécies. Segundo os autores da pesquisa, 4.224 km de rios devem ser adicionados à área de ocorrência do boto-cor-de-rosa e 2.596 km de rios à area de tucuxis e botos-cinzas.
Além dessas adições ao mapa de ocorrência da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza), os pesquisadores sugerem também a exclusão de 1.033 km de rios indicados como de ocorrência da Inia.
Além dos milhares de quilômetros adicionados ao habitat do cetáceos de água doce, observar indivíduos no rio Cassiporé foi um dos achados que mais chamou atenção dos pesquisadores. O Cassiporé é isolado, não tem ligações com outros rios da região que poderiam explicar a presença dos cetáceos ali, e deságua no oceano Atlântico.
"Era um local em que não se esperaria ver. Não tem ligação nenhuma com a bacia do Amazonas", afirma Miriam Marmontel, pesquisadora do Instituto Mamirauá. "Como assim tem um Inia lá?"
Os pesquisadores têm um palpite. O grande despejo de água do rio Amazonas no oceano poderia criar uma pluma na faixa litorânea na qual a água é mais doce do que salobra. Isso poderia permitir que o boto-cor-de-rosa transitasse em faixas de água do mar.
"Temos alguns indícios de que usam a pluma. E quem entrou no Cassiporé não fica só lá", diz Marmontel.
Muitas dúvidas ainda cercam o assunto, como quando os animais chegaram ao rio, se o movimento na área de pluma é frequente e que adaptações foram necessárias.
Marmontel classifica o Amapá como a última fronteira dos mamíferos aquáticos, pelo conhecimento quanto a esses animais na região. "Estamos escrevendo a história dos mamíferos aquáticos do estado", diz.
"Isso é extremamente relevante para ações de conservação", afirma Marcelo Oliveira, especialista em conservação do WWF-Brasil e um dos autores do estudo. "O Brasil tem plano nacional de conservação de espécies específico pra esses animais, mas se o bicho não está no mapa, como uma ação pode chegar na ponta? A população poderia desaparecer e não saberíamos."
Cinco espécies de boto podem ser encontradas na América do Sul. Os já citados tucuxis (Sotalia fluviatilis e S. guianensis), a Inia geoffrensis, o boto boliviano (I. boliviensis) e o boto-do-araguaia (I. araguaiaensis).
Os golfinhos de rio podem ser encontrados somente em 14 países da América do Sul e da Ásia. Os pesquisadores apontam a fragilidade desses animais perante ações humanas e citam a possível extinção do baiji (Lipotes vexillifer) na Ásia.
No Brasil, as hidrelétricas na Amazônia estão entre as principais ameaçadas ao boto-cor-de-rosa e a outras espécies aquáticas, como aponta o ICMBio na lista de animais ameaçados.
O represamento de rios para produção de energia hidrelétrica pode, por exemplo, isolar populações de botos. Além disso, a interrupção do fluxo de água acaba impedindo a movimentação de peixes migratórios e modifica a fauna da região, diz Marmontel.
"O boto vai se adaptar, mas decai a dieta deles. Começam a mudar os padrões de alimentação. Muda muito o ambiente", afirma a pesquisadora.
A matéria completa pode ser lida na Folha de S. Paulo
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