
03/11/2026
A 305 metros acima do trânsito da cidade, de seu novo apartamento no 74º andar, Anastasia Zeeman desfruta do tipo de vista que somente paredes de vidro do chão ao teto podem oferecer. Diante dela, estendem-se o horizonte e a silhueta urbana, onde tempestades e pores do sol se desenrolam como filmes numa tela imensa.
Mas o sol tropical da Malásia às vezes produz o que Zeeman chama de uma "parede de calor" irradiada pelas janelas.
Arranha-céus de vidro se tornaram marcos urbanos, símbolos de sofisticação e de um poder financeiro crescente em alguns dos lugares que mais rapidamente se desenvolvem no mundo —Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; Mumbai, na Índia; Jacarta, na Indonésia; Kuala Lumpur, na Malásia.
O vidro, porém, é pouco adequado para impedir a entrada do calor, e seu uso excessivo aumenta a quantidade de energia necessária para resfriar os edifícios. Isso alimenta um debate sobre se esses símbolos da modernidade fazem sentido em um mundo cada vez mais quente devido às mudanças climáticas.
Alguns argumentam que a ambição e a inovação que deram origem à era dos arranha-céus podem ajudar os edifícios modernos a enfrentar o aumento das temperaturas e, ao mesmo tempo, preservar as vistas milionárias. Outros afirmam que a estética inteiramente envidraçada é incompatível com a meta de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Para eles, chegou a hora de repensar as silhuetas das cidades.
Quando era prefeito de Nova York, em 2019, Bill de Blasio chegou a cogitar brevemente a ideia de proibir as estruturas de "vidro e aço". Philip Oldfield, acadêmico australiano da área de arquitetura que escreveu um livro sobre arranha-céus sustentáveis, classifica as torres de vidro como "criminosas do ponto de vista ambiental". Ken Shuttleworth, renomado arquiteto britânico que, três décadas atrás, ajudou a projetar o edifício Gherkin, em Londres, afirma hoje que faria diferente, usando um pouco menos de vidro.
"Na verdade, basta ter janelas menores", disse Shuttleworth. Segundo ele, sua abordagem ao projeto de arranha-céus mudou à medida que percebeu o dano ambiental.
Apesar das críticas, o apelo dos arranha-céus de vidro perdura.
Esse modelo, surgido em cidades americanas como Chicago e Nova York, espalhou-se pela China, pelo Oriente Médio e pelo Sudeste Asiático. Na última década, o mundo construiu 25 vezes mais edifícios de 200 metros ou mais do que nos anos 1980, segundo o Conselho de Edifícios Altos e Habitat Urbano. Cerca de 91% dos arranha-céus dessa altura existentes no mundo foram construídos desde a virada do século 21.
A grande maioria tem fachadas compostas principalmente de vidro, afirmou Antony Wood, que presidiu o conselho até o ano passado. Os defensores de projetos dominados pelo vidro afirmam que essa onda de construções pode ser responsável, desde que sejam feitas escolhas estratégicas.
Como o sol não atinge um edifício da mesma forma em todas as direções, é possível aumentar a eficiência energética simplesmente com a orientação correta. Os arquitetos também podem acrescentar elementos como ondulações para reduzir a incidência direta da luz solar sobre o vidro. O uso de vegetação nas fachadas envidraçadas é outra tendência.
O vidro também pode receber revestimentos metálicos finíssimos, que refletem a radiação. A maioria dos edifícios utiliza várias camadas de vidro para conter o calor. Uma opção mais sofisticada consiste em instalar persianas automatizadas entre essas camadas.
A matéria completa pode ser lida na Folha de S. Paulo
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