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´Overshoot´ é inevitável, mas voltar a 1,5°C de aquecimento ainda é possível, diz ONU

22/10/2026

Exceder o 1,5°C de aquecimento global "é iminente e inevitável". Trazer os termômetros de volta ao limite de um planeta viável ainda é possível se as emissões de gases do efeito estufa caírem 6% ao ano, até 2035, mas não só isso. "O mundo está ficando sem tempo e sem desculpas" para não encarar o problema, afirma António Guterres.
A frase do secretário-geral da ONU, que se despede do cargo no fim deste ano, sintetiza o tom do relatório anual do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), publicado nesta quarta-feira (21). Um apelo ao exercício do possível diante do fato de que o 1,5°C, o limiar determinado pelo Acordo de Paris, vai ser superado antes de 2030.
"Porque não podemos desistir", diz Inger Andersen, diretora do programa. "Cada fração adicional de grau Celsius faz diferença, e cada ano acima de 1,5 °C aumentará os impactos climáticos, como as inundações mortais, as ondas de calor e os incêndios florestais que têm assolado diversos países neste ano", resume a ambientalista dinamarquesa.
Parece motivo suficiente, mas a contabilidade climática mostra uma realidade menos atenta aos eventos extremos. Na rota atual de emissões, o planeta chegará a 2100 com 2,8°C de aquecimento. Se as metas climáticas anunciadas pelos países signatários do acordo forem cumpridas, 2,6°C; no cenário mais otimista, 2,1°C.
É muito. O planeta precisa chegar a 2050 com um aquecimento na casa de 1,7°C, 1,8°C. Não passando desse patamar, seria possível voltar ao 1,5°C no fim do século se no meio do caminho houver um esforço hercúleo para remover 320 gigatoneladas de CO² equivalente da atmosfera.
Seja por meios naturais, como aflorestamento, seja por novas tecnologias. Algo como oito anos de emissões globais.
De acordo com o Pnuma, só em 2025 foram 58,4 gigatoneladas de CO² equivalente, ligeiramente acima do previsto no ano passado, ligeiramente abaixo do verificado em 2024. "Uma bem-vinda divergência em relação à tendência de crescimento das últimas décadas. No entanto, ainda é cedo para tirar conclusões sobre estabilização ou pico", pondera Anne Olhoff, editora científica do relatório.
De novo, é muito. Para segurar o aquecimento em 1,7°C, 1,8°C em 2050, é preciso derrubar as emissões em 18% já em 2030 em relação aos níveis verificados em 2025; 45% em 2035; 69% em 2040. Lembrando que a remoção de carbono, natural ou fabricada, também tem que estar em curso.
Se a régua forem as atuais NDCs (contribuições nacionalmente determinadas, na sigla em inglês), as metas que os países se impõem, a queda estimada para 2030 gira em torno de 5% a 8%; ou de 11% a 15% em 2035.
A comparação dos dois últimos parágrafos não anima e elementos factuais que não estão no estudo, menos ainda. França e Alemanha, por exemplo, advogam a sobrevida dos motores de combustão interna para além de 2035 na Europa neste momento.
Medida protecionista, em torno de uma tecnologia decadente, que se soma a outras muitas, como iniciar a exploração de poços de petróleo com previsão de produção para daqui a duas décadas —caso do Brasil e de outros países produtores ou em vias de se tornar um.
No ritmo atual, cinco anos de emissões de CO² acrescem 0,1°C na média de temperatura global. E por isso o relatório observa que, "sem ação urgente", o pico de um "overshoot" administrável, o 1,7°C, 1,8°C de aquecimento em 2050, se tornará impossível.
"A lacuna nas emissões é agora uma lacuna de liderança", diz Guterres, usando o título do relatório para cutucar os países do G20, responsáveis por 76% das emissões mundiais. Lacuna, no caso, é a diferença entre que os governos propõem em termos de emissões e o que o deveria estar sendo feito segundo as diretrizes do Acordo de Paris.
"O relatório mostra que as políticas climáticas podem reduzir as emissões", afirma Olhoff.
O Pnuma se debruçou sobre 220 estudos que atestam a efetividade de práticas em diversos países. "A expansão da eletricidade renovável já é três vezes maior do que a prevista à época da adoção do Acordo de Paris. Vemos também que o aumento da capacidade de energia solar fotovoltaica já é sete vezes maior do que o previsto."

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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