
15/09/2026
Para escapar de caçadores e outros perigos humanos, mamíferos ameaçados de extinção estão mudando a forma como se locomovem na natureza. Um novo estudo revelou que, em vez de explorar novos caminhos, espécies como o macaco-prego-do-peito-amarelo (Sapajus xanthosternos) no Brasil e o elefante-africano (Loxodonta africana) no Zimbábue passam a usar rotas repetidas e familiares ao cruzar áreas de risco.
Ao transitar por esses trajetos habituais no "piloto automático", os animais reduzem o esforço cognitivo da navegação, indica um estudo internacional publicado em junho na revista Scientific Reports. Segundo os autores, essa economia de energia mental permite que as espécies mantenham o foco voltado inteiramente para a vigilância do ambiente, garantindo a fuga rápida ao primeiro sinal de risco.
"Nossos estudos sugerem que algumas espécies optam por estratégias de navegação que demandam menos atenção ao caminho em si, a fim de poderem monitorar sinais de risco em locais de atividade humana, como a caça", comenta Andrea Presotto, professora da East Carolina University, nos Estados Unidos, e primeira autora do artigo.
Conhecida pelos cientistas como "paisagem do medo", essa variação na percepção de risco molda o comportamento dos animais ao longo da vida. Segundo os pesquisadores, essas adaptações defensivas podem desencadear um efeito cascata no meio ambiente, resultando em graves consequências ecológicas e até mesmo na perda das culturas animais —termo usado para descrever comportamentos passados de geração em geração, desde ferramentas e técnicas para obter comida até dialetos próprios de vocalização.
"A paisagem do medo não é apenas um conjunto físico de lugares, como florestas, campos, rios ou trilhas, mas a percepção de risco associada a cada parte desses ambientes", diz Patricia Izar, professora do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) e coautora do estudo. O trabalho integra projeto financiado pela Fapesp.
"Alguns locais são percebidos como mais seguros, enquanto outros são percebidos como perigosos, dadas as chances maiores de encontrar predadores ou caçadores", explica ela.
Os pesquisadores acompanharam dez elefantes-africanos com coleiras que transmitiam sua localização em Victoria Falls, no Zimbábue, e um grupo de macacos-prego-do-peito-amarelo, que variava entre 32 e 37 indivíduos, residentes na Reserva Biológica de Una, no sul da Bahia. Os macacos-prego foram seguidos por dois anos pelos pesquisadores e tinham a localização georreferenciada por GPS.
Em um trabalho anterior com o mesmo grupo de primatas, os pesquisadores observaram que os animais passam menos tempo em áreas percebidas como mais perigosas, mesmo que mais ricas em biomassa vegetal e invertebrados dos quais podem se alimentar. O risco de predação, portanto, pesa mais na utilização dos espaços dentro das áreas de vida do que a disponibilidade de alimentos.
No estudo atual, os pesquisadores observaram que tanto elefantes quanto macacos-prego evitam mudar as rotas (ou seja, testar novos caminhos) em locais potencialmente mais perigosos, onde houve a ocorrência de eventos traumáticos no passado, no caso dos macacos-prego, e, no caso dos elefantes, onde a caça é permitida ou pode haver outros conflitos com humanos, como lavouras e cidades.
A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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