
13/07/2026
Um grupo de cientistas dos Estados Unidos publicou um estudo que soa quase como ficção científica, mas que nasceu de uma tragédia real.
Os incêndios florestais que consumiram a Austrália no verão de 2019 para 2020, conhecidos como "Black Summer", lançaram tanta fumaça na atmosfera que ela chegou a alterar o comportamento das nuvens sobre o Oceano Pacífico.
O fenômeno, batizado por outra equipe de pesquisa em 2023, teria ajudado a resfriar as águas do Pacífico e contribuiu para a formação de uma La Niña que durou de 2020 a 2023.
Foi esse acaso climático que deu a pesquisadores dos Estados Unidos a ideia para o novo estudo, publicado recentemente na revista científica "Science Advances".
A pergunta que eles quiseram responder: se a fumaça dos incêndios conseguiu "empurrar" o clima do Pacífico para o lado mais frio, seria possível repetir esse efeito de propósito — e usá-lo para enfraquecer um El Niño antes que ele cause estragos?
🌊 Entenda: O El Niño e a La Niña são as duas fases do mesmo fenômeno climático, chamado ENOS (El Niño-Oscilação Sul). O El Niño é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico equatorial.
O fenômeno ocorre com frequência a cada dois a sete anos, tem duração média de doze meses e gera impacto direto no aumento da temperatura global. A La Niña é o oposto: um resfriamento dessas mesmas águas, com efeitos igualmente significativos, mas em direção contrária.
A técnica testada nos computadores se chama clareamento de nuvens marinhas (ou MCB, na sigla em inglês).
A ideia é borrifar partículas de sal do mar na atmosfera para deixar as nuvens baixas mais brancas e mais refletivas, fazendo com que uma parte maior da luz do sol volte para o espaço em vez de esquentar o oceano.
É um tipo de geoengenharia solar, a mesma categoria de tecnologia que, até agora, era discutida sobretudo como ferramenta para conter o aquecimento global no longo prazo — e, por isso mesmo, sempre envolta em controvérsia.
Usando um modelo climático de última geração, a equipe simulou o que teria acontecido se esse clareamento artificial de nuvens tivesse sido aplicado antes de dois dos El Niños mais fortes das últimas décadas: o de 1997-1998 e o de 2015-2016.
O resultado, segundo os autores, foi animador do ponto de vista físico: a intervenção conseguiu, nas simulações, enfraquecer a força desses eventos — desde que fosse aplicada cedo o suficiente e por tempo suficiente.
"Uma das maiores preocupações sociais em torno da geoengenharia é o fato de que, se a usarmos para reduzir riscos climáticos de longo prazo, temos que aplicá-la continuamente, por tempo indefinido", explica Jessica Wan, pesquisadora que liderou o estudo e hoje é pós-doutoranda na Universidade de Chicago.
"Se conseguíssemos atuar sobre a variabilidade natural, poderíamos obter alguns dos benefícios da geoengenharia sem precisar empregá-la indefinidamente."
É essa a diferença que os autores destacam em relação a outras propostas de geoengenharia: em vez de tentar segurar o termômetro do planeta ano após ano — um compromisso de décadas, com todos os riscos políticos e técnicos que isso implica —, a ideia seria agir só durante a janela de alguns meses em que um El Niño está se formando.
Katharine Ricke, professora da Scripps Oceanography e coautora do estudo, costuma estar do lado dos cientistas que pedem cautela com a geoengenharia.
Mas, segundo ela, esse experimento acidental da natureza deu um fôlego extra à pesquisa.
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