
27/06/2024
Nas últimas semanas, as cenas de colunas de fumaça subindo da vegetação voltaram a assolar o pantanal, antecipando o início da temporada de incêndios no bioma, que normalmente têm seu período mais crítico de agosto a outubro.
Após um ano de calor recorde e mais uma cheia muito abaixo da média, já são mais de 3.200 focos na região em 2024, segundo dados do Inpe (Instituto de Pesquisas Espaciais). O número representa um aumento de 33% em relação ao mesmo período de 2020, quando foram registradas as maiores queimadas da história do bioma, e alta de 2.134% na comparação com o primeiro semestre do ano passado.
A situação levou o governo de Mato Grosso do Sul a decretar situação de emergência nesta segunda-feira (24).
Com a seca persistente em boa parte do país, as queimadas também estão acima da média no cerrado e na amazônia. Na amazônia, o crescimento foi de 76% nos focos de incêndio entre 1º de janeiro e 23 de junho deste ano, em relação ao mesmo período de 2023, enquanto no cerrado a alta foi de 31%.
No Brasil, como um todo, o índice aumentou 60% neste ano e chegou a 33.368 focos —o número mais alto em mais de duas décadas.
No Brasil, as queimadas são provocadas, principalmente, pelo uso do fogo para renovar pastagens e limpar a vegetação derrubada pelo desmatamento. Ou seja, a maior parte do fogo é consequência de ações humanas.
O fogo, no entanto, não ocorre da mesma forma nos diferentes biomas brasileiros. Enquanto alguns ecossistemas são mais adaptados às chamas, outros são totalmente vulneráveis a elas —e mesmo os mais resistentes vêm sofrendo com a repetição acima da média dos grandes incêndios.
🔥 ENTENDA A OCORRÊNCIA DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NO BRASIL
♨️Quais as características do fogo no pantanal?
A maior parte do pantanal é formado por campos, cobertos originalmente por capins nativos, que são em grande parte alagados durante a época da cheia. Essa vegetação é suscetível às chamas e algumas espécies de gramíneas dependem do calor para sobreviver.
"O fogo é íntimo do pantanal, ele faz parte da evolução do bioma", afirma Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas Fogo e diretora de ciências do Ipam (Instituto de Pesquisa da Amazônia). "Mas o fogo no pantanal tem ocorrido cada vez mais fora da época natural."
Liana Anderson, pesquisadora do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), destaca que a recorrência e a temperatura com que o fogo vem queimando "já estão alterando as características dessa vegetação que, em teoria, seria adaptada a lidar com esse fenômeno natural".
♨️ É possível comparar a presença do fogo no pantanal e no cerrado?
Tanto o cerrado quanto o pantanal têm vegetações mais adaptadas e, em certo nível, até mesmo dependentes do fogo —algumas espécies só florescem ou só brotam depois da passagem das chamas, por exemplo.
Dentro da dinâmica natural de ambos os biomas, incêndios florestais são provocados principalmente por raios. Porém, quando tempestades com descargas elétricas atingem essas regiões, no final da estação chuvosa ou logo no início da seca, as chamas não se espalham. Já quando a ignição é humana, durante a seca, o potencial destrutivo do fogo se torna muito maior.
A pesquisadora do Ipam diz que a vegetação do cerrado é mais diversa do que a do pantanal, onde as chamas se alastram com maior facilidade. Além disso, no solo das áreas alagadas, chamado de turfa, é mais difícil conter os incêndios, que se propagam por baixo da superfície, tornando o combate ao fogo ainda mais desafiador no pantanal.
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