
04/06/2024
Tempestades severas, como a que atingiu o Rio Grande do Sul, se tornarão mais frequentes com o aquecimento global, o que torna imprescindível a adaptação aos novos padrões climáticos. Essa tarefa é necessariamente coletiva e, para alcançar seus objetivos, deve ser informada por informações científicas de qualidade, ter uma governança que garanta o cumprimento de suas metas e, ainda mais importante, resultar de um engajamento profundo da sociedade.
Você pode ser liberal ou conservador, ambientalista ou terraplanista, ter votado em Bolsonaro, Lula ou nulo no segundo turno das eleições de 2022. Para a mudança do clima, não importa.
Você habita um planeta que tem esquentado devido à queima de petróleo, gás e carvão e ao desmatamento. Você fez parte da humanidade que usufruiu do privilégio de um clima estável desde o início do Holoceno e que agora —acredite, goste, queira ou não— tem de enfrentar toda sorte de instabilidades.
Isso é um problema porque a velocidade da mudança global do clima já excede a capacidade de adaptação dos nossos sistemas naturais e humanos. Se pudéssemos rapidamente mudar de lugar toda a gente, a fauna e a flora e viver igualmente bem em terra ou mar, talvez não fosse uma grande ameaça. Na realidade, nossos sistemas não mudam a um clique, não são instantâneos.
Mas eles se transformam, primeiro de forma lenta e depois rapidamente. Um desses sinais apareceu na pesquisa Quaest que entrevistou brasileiros sobre o desastre em curso no Sul do país. Para 99% dos entrevistados, as enchentes no Rio Grande do Sul estão, em alguma medida, associadas à mudança do clima. Ou seja, praticamente nenhum brasileiro mais precisa ser convencido da ligação entre o problema global e o impacto local.
Todos precisam se proteger e ser protegidos. Mesmo antes da mudança do clima induzida pelo homem, havia eventos extremos de tempos em tempos. No entanto, o que está mudando agora é sua frequência e intensidade, muitas vezes ultrapassando as expectativas históricas.
Houve uma cheia similar à atual em Porto Alegre em 1941. O que é diferente agora? Uma enchente como a de 1941 era esperada, segundo dados oficiais, em 370 anos, não em 83. O tempo de recorrência achatou. Como nos ensinam climatologistas, quanto mais quente a atmosfera se torna, maior sua capacidade de reter umidade —e o vapor d’água vira combustível para tempestades severas e concentradas. Portanto, não é exagero dizer que o clima está mais pesado.
A aceleração dos impactos torna imprescindível a tarefa de adaptação. Mas o que é isso? Como se faz?
Em 2021, o jornalista David Pogue escreveu um manual de sobrevivência para a mudança do clima. Ainda não publicado em português, o livro tem mais de 600 páginas e contém recomendações práticas, que podem ajudar na tomada de decisão individual, construídas com 50 especialistas sobre onde viver, como construir, o que plantar, onde investir, como comprar seguros, proteger suas crianças e se preparar para vários tipos de desastres.
Guardo esse livro na estante desde que foi lançado. Lembrei-me dele nas últimas semanas, quando amigos gaúchos começaram a me acionar com perguntas difíceis e de cunho pessoal. Deveriam se preparar para migrar? Se sim, quando e para onde? Quem deveria ser responsabilizado pelo desastre? O que cobrar das autoridades públicas e a quem?
Trabalho com políticas climáticas há anos, mas nunca imaginei que seria confrontada com perguntas tão diretas quanto essas, especialmente porque ações individuais são o que nos resta durante eventos tão traumáticos.
Do livro de Pogue, extraí algumas respostas. Por exemplo, como fazer sistemas de backup de água e energia. Outras questões, porém, não são tão simples: nenhum lugar do mundo está imune nem se tornará um novo paraíso neste planeta mais quente. Logo, migrar não é exatamente uma solução.
Mas medidas de proteção, quando tomadas em nível de empresas, bairros e comunidades, podem ter grande valor. Por exemplo, tomei conhecimento de um polo industrial que, elevado, não foi atingido pela enchente no Rio Grande do Sul. Por outro lado, os trabalhadores não puderam trocar de turno nem continuar a trabalhar e nenhum caminhão conseguia entrar ou sair.
Logo, a autoproteção ajuda, mas não impede a chuva nem a inundação forte e tampouco ergue as barreiras físicas necessárias contra enchentes. A adaptação é necessariamente uma ação coletiva de ajuste aos impactos da mudança do clima atuais ou esperados, de modo a reduzir danos ou aproveitar oportunidades.
Já a resiliência é a capacidade de comunidades, ambientes e economias de enfrentar um evento perigoso, mantendo suas funções e estrutura essenciais. No evento extremo no Rio Grande do Sul, notamos a falta de adaptação e a baixa resiliência.
Conclua a leitura desta matéria na Folha de S. Paulo
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