
21/05/2024
Na manhã de 18 de janeiro de 2003, Penny Sackett, na época diretora do observatório Mount Stromlo da Universidade Nacional da Austrália, no arredores de Canberra, recebeu um e-mail preocupante de um estudante da instituição. Incêndios florestais que estavam no horizonte no dia anterior agora se aproximavam rapidamente. Os astrônomos estavam considerando evacuar o local, escreveu o estudante.
Naquela tarde, de sua casa a algumas milhas de distância, Sackett viu brasas ardentes caindo de um céu enfumaçado e se preocupou. Mais tarde, ela soube que seus colegas haviam escapado no momento certo: enquanto o fogo subia a montanha, eles fugiram pelo outro lado carregando discos cheios de dados de pesquisa.
Todos os oito telescópios do Mount Stromlo foram destruídos naquele dia, juntamente com milhões de dólares em equipamentos que engenheiros estavam construindo para observatórios ao redor do mundo. Os incêndios também destruíram 500 casas em toda a região de Canberra e mataram quatro pessoas.
O incidente foi um aviso precoce para a astronomia: incêndios florestais, exacerbados pelas mudanças climáticas, estavam se tornando um problema para a área. Desde então, vários outros observatórios foram danificados ou ameaçados por incêndios e outros fenômenos climáticos extremos, e as condições atmosféricas em mutação tornaram a pesquisa astronômica feita em terra mais desafiadora.
Esses incidentes chamaram a atenção para a situação da Terra, e um número crescente de astrônomos está se mobilizando para combater as mudanças climáticas. Em 2019, profissionais e estudantes fundaram uma organização global chamada Astrônomos para o Planeta Terra. O Astrobites, jornal administrado por estudantes de pós-graduação na área, realizou sua terceira Semana da Terra anual em abril.
Também no mês passado, um grupo de astrônomos lançou "Mudanças Climáticas para Astrônomos: Causas, Consequências e Comunicação", uma coleção de artigos detalhando as experiências pessoais dos pesquisadores com a crise climática, o impacto em seu trabalho e como eles podem usar sua autoridade científica para fazer a diferença.
Outros astrônomos estão espalhando conscientização em sala de aula, incorporando o clima da Terra em suas pesquisas ou deixaram a ciência e se tornaram ativistas em tempo integral.
Sackett passou a ser a líder científica da Austrália de 2008 a 2011 e tornou as mudanças climáticas um foco principal de seu cargo.
"Entre os incêndios de 2003 e quando me tornei líder científica, ficou claro que as coisas estavam piorando e isso afetaria todos os aspectos da sociedade", disse ela. Hoje, Sackett tem uma empresa de consultoria e presta serviço para agências governamentais, empresas e grupos sem fins lucrativos sobre questões climáticas.
Travis Rector, astrônomo da Universidade do Alasca em Anchorage e um dos fundadores dos Astrônomos para o Planeta Terra que editou "Mudanças Climáticas para Astrônomos", disse que "as pessoas muitas vezes ficam surpresas ao saber que os astrônomos estão envolvidos no trabalho sobre mudanças climáticas".
"Mas há uma forte sobreposição entre a ciência da astrofísica e a ciência das mudanças climáticas. Nós entendemos, mais do que qualquer outra pessoa, que a Terra é nosso único lar", completou.
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