
14/05/2024
Em meio à tragédia climática que atinge o Rio Grande do Sul desde o final de abril, multiplicam-se nas redes sociais vídeos de antenas e rastros de motores de avião. "O que está rolando definitivamente não é natural. Vamos abrir os olhos!", clama uma usuária no X (antigo Twitter).
Para ela, a catástrofe, que já matou mais de cem pessoas e afetou quase dois milhões, é resultado de um ataque causado pelo Haarp (High-frequency Active Auroral Research Program) —um projeto de estudo da ionosfera através de antenas localizadas no Alasca, nos Estados Unidos.
Outros usuários filmam aeronaves que cruzam o céu gaúcho, identificando a fumaça deixada pelos veículos como o verdadeiro motivo das fortes chuvas.
Os conteúdos convergem em uma teoria conspiratória que nega explicitamente as mudanças climáticas e culpabiliza governos e instituições científicas por, supostamente, orquestrarem "tragédias planejadas".
As publicações, com centenas de milhares de interações nas redes sociais, ignoram o já estabelecido consenso científico acerca das causas da catástrofe e sua forte ligação com o aquecimento global.
Carlos Nobre, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT), explica que a situação no Rio Grande do Sul tem causas bem definidas: um sistema de baixa pressão, ao ser bloqueado por outro, de alta pressão, no Centro-Oeste e Sudeste do país, fez com que as frentes frias ficassem estacionadas na região, causando chuvas históricas alimentadas por um fluxo de vapor d´água vindo da Amazônia.
Segundo ele, a situação é intensificada pelo aquecimento global. "A atmosfera mais quente armazena muito mais vapor d´água, o que alimenta episódios mais frequentes e intensos de chuvas que geram desastres como este", explicou.
Esse é também o consenso no governo. Em discurso em 8 de maio, o presidente Lula declarou que o desastre servia como uma "cobrança" do planeta para todos. Postura que vai na contramão de seu antecessor, Jair Bolsonaro, cujo governo ficou conhecido pela negação da crise climática.
Uma pesquisa Quaest divulgada em 9 de maio mostrou que 99% dos entrevistados acreditavam que as mudanças climáticas estavam pelo menos um pouco relacionadas aos eventos no território gaúcho.
Apesar disso, narrativas conspiratórias que antes não encontravam ressonância no ambiente digital brasileiro podem ter achado uma porta de entrada em meio ao desastre.
Os usuários repetem conspirações compartilhadas —e desmentidas— há anos nos Estados Unidos, como a teoria dos "chemtrails", ou "rastros químicos", junto a descontextualizações sobre o projeto Haarp.
Eles defendem que o governo utiliza aviões para espalhar na atmosfera substâncias químicas que, por sua vez, seriam ativadas por antenas potentes no Alasca, supostamente alterando o clima e provocando desastres naturais.
As alegações sobre os "chemtrails" ignoram processos já explicados: os motores das aeronaves deixam rastros de condensação do vapor d´água presente na atmosfera, além de liberarem fuligem e poluentes, o que justifica as nuvens.
Já as antenas no Alasca, ou Haarp fazem referência ao projeto High Frequency Active Auroral Research Program, da Universidade de Alaska Fairbanks. O programa estuda a ionosfera através da transmissão de frequências de até 3.6MW, com efeitos curtos e, segundo a instituição, sem a habilidade de manipular o clima.
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