
30/04/2024
O que têm em comum as cidades de São Paulo, Recife e Curitiba? A resposta é alarmante: mais da metade dos seus habitantes vivem com pelo menos uma doença crônica não transmissível (DCNT), como câncer, diabetes, doenças cardiovasculares e respiratórias. Essas capitais também registram baixo índice de consumo diário de alimentos saudáveis, enquanto os alimentos ultraprocessados estão cada vez mais presentes na rotina dos seus habitantes. Considerando esses fatos, o documento “Produção de alimentos nas cidades e a promoção da saúde”, lançado na última quinta-feira (25), defende que a produção de alimentos nas cidades deve compor o rol de estratégias públicas para frear a atual tendência de adoecimento e promover a saúde da população.
A publicação traça um panorama da saúde e do consumo alimentar das populações de seis capitais – Rio de Janeiro, Belém, Distrito Federal, São Paulo, Recife e Curitiba – a partir dos dados disponíveis na pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico de 2023 e na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019. Traz, ainda, recomendações para uma eficaz relação entre produção local de alimentos e estratégias de promoção da saúde por meio da alimentação saudável.
O documento é fruto de uma parceria entre o Instituto Escolhas e a Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis – vinculada à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP).
Os dados mostram que entre 63% e 68% da população das capitais brasileiras não consome frutas, legumes e verduras regularmente – isto é, cinco ou mais dias da semana. O percentual de pessoas vivendo nas capitais que não atingem o consumo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – 400g/dia/pessoa – é ainda mais alto: de 78%, segundo a Vigitel.
“Esse baixo consumo está, muitas vezes, vinculado ao preço dos alimentos in natura, especialmente nos segmentos sociais em situação de vulnerabilidade econômica. A produção de alimentos nas áreas urbanas tem um enorme potencial para atacar essa questão, colaborando para a redução dos custos de transporte e comercialização”, afirma Jaqueline Ferreira, gerente de portfólio do Escolhas.
Jaqueline lembra que estudos do Instituto já mostraram que a agricultura urbana e periurbana na região metropolitana de São Paulo tem potencial para abastecer 20 milhões de pessoas por ano com legumes e verduras. Já em Belém, “a agricultura em espaços ociosos poderia produzir mais de 20 mil toneladas de hortaliças e macaxeira em 344 hectares. Esse volume abasteceria 1,7 milhão de pessoas por ano, ou seja, toda a população da cidade”, explica.
Para além do preço, moradores de áreas periféricas também enfrentam a baixa presença de estabelecimentos que vendem produtos in natura, enquanto predominam aqueles que vendem produtos ultraprocessados nesses territórios. O impacto disso na saúde é inevitável.
”Pesquisas científicas não deixam dúvidas de que a ingestão adequada em quantidade e frequência de frutas e vegetais variados é protetora da saúde, reduzindo o risco de desenvolvimento de DCNTs, inclusive. Em contrapartida, o consumo frequente de ultraprocessados é um importante fator de risco para o desenvolvimento dessas doenças. E o cenário que vemos nas capitais estudadas é justamente o contrário: baixa ingestão de frutas e vegetais, e crescente de ultraprocessados, resultando em altos níveis de doenças crônicas”, destaca Nadine Marques, pesquisadora da Cátedra Josué de Castro.
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