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Grandes empresas deixam a desejar em promessa de resolver problema do lixo plástico

25/04/2024

A Nestlé promete que, até 2025, não usará em seus produtos nenhum plástico que não seja reciclável. A L´Oréal garante que, até esse mesmo ano, todas as suas embalagens serão "retornáveis, reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis". E a Procter & Gamble assegura que vai reduzir pela metade o uso de resina plástica virgem à base de petróleo até 2030.
Para isso, essas e outras empresas estão promovendo uma nova geração de usinas de reciclagem "avançada" ou "química", que prometem reciclar muito mais produtos do que a capacidade atual.
Até o momento, a reciclagem avançada está com dificuldades para cumprir suas promessas. No entanto, a nova tecnologia está sendo tratada pelo setor de plásticos como uma solução para o crescente problema global dos resíduos.
A abordagem tradicional da reciclagem consiste em simplesmente triturar e derreter os resíduos plásticos. Os novos operadores de reciclagem avançada afirmam que podem decompor o plástico com muito mais profundidade, em unidades moleculares mais básicas, e transformá-lo em um novo plástico.
A PureCycle Technologies, empresa com grande destaque nos compromissos de plásticos da Nestlé, da L´Oréal e da Procter & Gamble, administra uma dessas instalações: uma usina de US$ 500 milhões em Ironton, no estado americano de Ohio.
Originalmente, as operações deveriam começar em 2020, com a capacidade diária de processar até 182 toneladas de polipropileno descartado, plástico difícil de reciclar, usado amplamente em copos de uso único, potes de iogurte, cápsulas de café e fibras têxteis.
Mas os últimos meses da PureCycle foram repletos de contratempos: problemas técnicos na usina, ações judiciais movidas por acionistas, questionamentos sobre a tecnologia e um relatório surpreendente de investidores contrários que ganham dinheiro quando o preço das ações cai. Segundo eles, imagens captadas por um drone que sobrevoou as instalações mostraram que a usina estava longe de ser capaz de produzir grandes quantidades de plástico novo.
A PureCycle, sediada em Orlando, na Flórida, declarou que continua no caminho certo. "Estamos aumentando a produção. Acreditamos nessa tecnologia, já vimos que ela funciona e estamos dando passos largos e rápidos", disse seu CEO, Dustin Olson, durante uma recente visita às instalações, compostas por uma constelação de tubos, tanques de armazenamento e torres de resfriamento em Ironton, perto do rio Ohio.
A Nestlé, a Procter & Gamble e a L´Oréal também expressaram confiança na PureCycle.
A L´Oréal a classificou como um dos muitos parceiros que estão desenvolvendo uma série de tecnologias de reciclagem. A P&G afirmou que espera usar o plástico reciclado para "inúmeras aplicações de embalagem à medida que a produção for aumentando". A Nestlé não respondeu aos pedidos de comentário, mas anunciou que está colaborando com a PureCycle em "tecnologias inovadoras de reciclagem".
Os problemas da PureCycle exemplificam os desafios mais amplos enfrentados por uma nova geração de usinas de reciclagem que vêm lutando para acompanhar a crescente onda de produção global de plástico, que, de acordo com cientistas, pode quase quadruplicar até meados do século.
Uma unidade de reciclagem de produtos químicos em Tigard, no Oregon, parceria entre a Agilyx e a Americas Styrenics, está em processo de fechamento depois de sofrer perdas de milhões de dólares. Uma usina em Ashley, Indiana, cuja meta era reciclar cem mil toneladas de plástico por ano até 2021, processou apenas 2.000 toneladas até o fim de 2023, depois de incêndios, derramamentos de óleo e reclamações relacionadas à segurança dos trabalhadores.
Ao mesmo tempo, muitas das instalações de reciclagem da nova geração estão transformando plástico em combustível, algo que a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) não considera como reciclagem, embora grupos do setor defendam que parte desse combustível pode ser transformado em plástico novo.
De modo geral, as usinas de reciclagem avançada estão lutando para dar conta de aproximadamente 36 milhões de toneladas de plástico que os americanos descartam por ano, mais do que qualquer outro país.
Mesmo que as dez usinas de reciclagem química remanescentes nos EUA operassem com capacidade total, processariam cerca de 456 mil toneladas de resíduos plásticos, segundo avaliação recente da Beyond Plastics, grupo sem fins lucrativos que defende controles mais rígidos na produção de plásticos. Isso seria suficiente para aumentar a taxa de reciclagem de plástico em apenas um ponto percentual —há décadas ela se mantém abaixo de 10%.
Para os consumidores, isso significa que grande parte do plástico que destinam à reciclagem não chega a ser processado, mas acaba em aterros sanitários. Atualmente, descobrir quais plásticos são recicláveis e quais não são é, essencialmente, um jogo de adivinhação. Essa confusão fez com que um fluxo de lixo não reciclável contaminasse o processo de reciclagem, obstruindo o sistema.
"O setor está tentando nos convencer de que tem uma solução, mas o que ele tem é uma não solução", afirmou Terrence J. Collins, professor de química e ciência da sustentabilidade na Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh.

Conclua a leitura desta reportagem acessando a Folha de S. Paulo

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