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Política ambiental na Europa ´derrete´ por pressão de agricultores

20/02/2024

A eclosão de protestos de agricultores em vários países da União Europeia tem posto em xeque o avanço nas políticas de proteção ambiental e de transição energética do bloco europeu.
Embora as reivindicações do setor agropecuário tenham diferenças importantes entre entre os vários Estados-membros, há uma queixa em comum: o aumento das exigências ambientais estaria estrangulando o setor e ameaçando a viabilidade das lavouras no velho continente.
Em meio às manifestações, que começaram na França, mas se espalharam desde Portugal até à Polônia, a Comissão Europeia, o braço executivo da UE, tem feito uma série de concessões.
Nas últimas semanas, a comissão já abandonou um plano de redução do uso de pesticidas, concedeu isenção temporária para as exigências de "descanso" de parte do solo entre as culturas e retirou o projeto de redução de 30% de emissões de gases-estufa –em relação aos níveis de 2015– do setor da agricultura, entre outras medidas.
Entre os ambientalistas, há o temor de que a situação na União Europeia, que nos últimos anos vem tendo um papel de liderança nas negociações climáticas, possa acabar tendo reflexos negativos em outros pontos do globo.
"Essas mudanças na Europa fortalecem a argumentação antiambiental que já existe em outros locais", avalia Paulo Barreto, pesquisador do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).
Segundo ele, as condições da agricultura europeia já vinham sendo usadas como justificativa, entre alguns setores do agro brasileiro, na defesa de menos exigências ambientais para os produtores do Brasil.
"No Brasil, há vários anos já existe essa conversa, principalmente em termos florestais, de que os europeus exigiam dos brasileiros muito mais do que eles próprios faziam, como a questão de reserva legal", afirmou. Uma situação que, na avaliação do pesquisador, poderia se intensificar.
O cientista relembra que, tanto na Europa quanto no Brasil, a proteção da floresta e do ambiente traz benefícios para os próprios produtores. "A floresta é um seguro contra extremos climáticos que prejudicam o agro, a geração de energia e muito mais."
Ainda que a agricultura seja responsável por apenas 1,4% do PIB (Produto Interno Bruto) da UE, o setor segue com grande capital político e social. Além das medidas comuns europeias, os Estados-membros também têm apresentado pacotes domésticos de benesses para tentar arrefecer os ânimos do campo.
Com os abalos nas cadeias globais de produção e de abastecimento causados pela pandemia da Covid-19 e, mais recentemente, pela guerra entre Rússia e Ucrânia, a defesa da produção de bens alimentares essenciais dentro das fronteiras da União Europeia se intensificou em todo o bloco.
Não por acaso, a agricultura e as políticas ambientais da União Europeia devem estar entre os temas centrais da campanha das eleições para o Parlamento Europeu, em junho.
Discursos contrários às principais medidas de redução de emissões de gases-estufa do bloco já são comuns ao repertório das siglas de ultradireita, mas não são exclusividade dos partidos mais radicais.
Nos últimos meses, o PPE (Partido Popular Europeu) –agrupamento de partidos conservadores e democratas-cristãos que tem 178 dos 705 assentos do Parlamento Europeu– intensificou a ofensiva contra parte dos textos ambientais.
Graças à mobilização do grupo, em novembro, os eurodeputados reprovaram a proposta de redução de agrotóxicos que integrava o chamado Acordo Verde da UE. Agora, o PPE tem feito uma série de declarações em favor das reivindicações dos manifestantes.
O partido também pode estar comprometido em reverter a decisão, já aprovada pelos eurodeputados, de acabar com a produção de veículos a combustão na União Europeia até 2035. De acordo com reportagem do jornal Politico, a versão preliminar do manifesto do Partido Popular Europeu para as eleições de junho defende reabrir essas discussões.

Leia a matéria completa na Folha de S. Paulo

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