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Cientistas brasileiros geram primeiro coral de proveta do país

25/01/2024

Foram quatro anos de dedicação e estudos até que pesquisadores brasileiros conseguissem gerar pela primeira vez um coral in vitro no país. A conquista veio com a criogenia, com congelamento dos espermatozoides, seguido de inseminação artificial. O projeto pioneiro, apoiado pela Rede de Pesquisas do Instituto Coral Vivo e financiado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, pode garantir a sobrevivência da espécie no litoral brasileiro.
Os resultados da pesquisa, que gerou indivíduos da espécie coral-couve-flor (Mussismilia harttii) em ambiente de laboratório, são animadores para a preservação dos recifes de corais, ameaçados por uma série de problemas, como a poluição e o aquecimento global. Uma projeção da Unesco apontou que 50% dos recifes de corais do planeta desapareceram nos últimos anos e que as mudanças climáticas podem influenciar na sua extinção até o final deste século.
A pesquisa desenvolvida e coordenada pelo zootecnista Leandro Godoy, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pode contribuir futuramente para repovoar a costa brasileira com novos corais produzidos em laboratório. Em 2019, durante a primeira fase do estudo, os cientistas e técnicos do Instituto Coral Vivo foram a campo, no Parque Marinho do Recife de Fora, próximo a Porto Seguro (BA), para coletar algumas colônias de coral e começar a investigar detalhes da fisiologia dos espermatozoides e óvulos expelidos pela Mussismilia harttii, espécie encontrada apenas no litoral brasileiro.
A Mussismilia harttii tem característica hermafrodita, ou seja, encontramos os dois sexos no mesmo pólipo. Ela lança na água um “pacote de gametas” de 1,5 centímetro – cada pacote contém bilhões de espermatozoides e centenas de óvulos. Depois de liberado no mar, o pacote se rompe e espermatozoides e óvulos flutuam na água até se encontrarem para a fecundação e gerar um embrião. No oceano, os espermatozoides conseguem sobreviver por cerca de 22 horas e estima-se que apenas 1% dos óvulos fecundados conseguem “pousar” (assentar) em uma superfície do oceano para formar um coral “recruta” (espécie de bebê coral), que pode levar até três anos para crescer apenas um centímetro no oceano. “A geração de um coral e seu desenvolvimento são quase um milagre”, diz Godoy.
A reprodução da espécie acontece num período específico do ano, nas noites de lua nova entre os meses de setembro e novembro. O conhecimento desses detalhes por parte da equipe do Coral Vivo foi fundamental para dar início a primeira fase da pesquisa. Após a coleta, os corais eram levados para a base do Instituto Coral Vivo, também na Bahia, onde os experimentos foram realizados.
O sêmen dos corais ficou congelado a uma temperatura de -196ºC por dois anos e meio, em um laboratório da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Esse foi o primeiro banco de sêmen de corais do Oceano Atlântico Sul, contando com cerca de 2 bilhões de espermatozóides – suficientes para repovoar um recife de dimensão equivalente a 606 campos de futebol, quatro Parques Ibirapuera, quase dois Central Parks, três países de Mônaco e 15 cidades do Vaticano.
“Após permanecerem estocados em um botijão de nitrogênio líquido, cerca de 84% dos espermatozóides estavam viáveis. O sêmen descongelado, em todas as concentrações testadas, promoveu uma taxa de fertilização in vitro de 100%”, afirma o zootecnista.
O método mais lento de congelamento acabou se mostrando o mais eficaz. O sêmen foi descongelado aos poucos para que as células não fossem prejudicadas. Isso porque os cientistas não podem simplesmente pegar o material biológico e colocá-lo em baixa temperatura, pois são compostos em grande parte de água e, ao serem expostos a temperaturas abaixo de 0°C, invariavelmente são formados cristais de gelo. Se um cristal de gelo – que é pontiagudo e irregular – se forma e cresce dentro de uma célula, ela morre.

Vem ler a reportagem clicando no CicloVivo

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