
09/01/2024
A economia movida a restos, como lixo, esgoto, esterco e subprodutos vegetais do agronegócio, tem um protagonista em ascensão, o biometano. O nome é feioso, mas suas características como substituto de combustíveis fósseis são atraentes para um número crescente de interessados.
Em resumo, o processo de geração desse elemento é simples. Restos orgânicos, que sem tratamento adequado contaminam o ambiente e causam doenças, são processados em compartimento fechado, emitindo biogás. Purificado em outro processo, se transforma em biometano —e ainda gera biofertilizantes.
As características do biometano são idênticas ao do gás natural de petróleo, a ponto de ser possível misturar ambos numa rede de gasodutos, nos canos de casas e empresas e até nos tanques de veículos que utilizam gás de petróleo. Pode também substituir o diesel em ônibus e caminhões e a gasolina, nos carros.
Esse gás extraído de matéria orgânica, no entanto, tem uma importante diferença em relação ao irmão fóssil: considerando todo o processo produtivo, a troca de um pelo outro pode reduzir as emissões em 80% —daí estar ganhando espaço como aliado das empresas para cumprir metas de descarbonização.
"Ao furar um poço de petróleo, ocorre a liberação de um gás que estava preso, quieto sob a rocha, e isso eleva o volume de emissões. O biometano, ao contrário, já está na atmosfera. Não é uma nova emissão", explica Tamar Roitman, gerente-executiva da Abiogás (Associação Brasileira de Biogás).
Três segmentos são as principais fontes do produto: os restos acumulados em aterros sanitários, os subprodutos da agropecuária e os resíduos de saneamento básico.
"O biometano é a bola da vez", afirma Milton Pilão, CEO da Orizon Valorização de Resíduos, cuja essência é gerar ganhos a partir do lixo. A companhia é listada na B3, a Bolsa de São Paulo, participou da COP28 (conferência do clima da ONU) e tem uma ampla visão da demanda por produtos ambientalmente corretos. Seus aterros sanitários transformados em ecoparques oferecem inúmeros produtos. Já são 16 em 11 estados.
"No conjunto, temos tecnologia de compostagem acelerada para gerar fertilizante, triagem mecanizada para reciclados, equipamentos para transformar resíduo em pallets de combustível e também para captar o biogás do aterro, que podemos transformar em energia elétrica ou biometano", enumera.
"A demanda por gás renovável hoje é muito maior que a oferta, especialmente pelas indústrias, e estamos priorizando o biometano."
No ecoparque de Paulínia (SP), por exemplo, onde uma térmica abastece o sistema nacional, a meta é priorizar a oferta do biometano quando o prazo do contrato de fornecimento de eletricidade chegar ao fim, em 2025.
A Gás Verde, do grupo Urca Energia, maior produtora de biometano da América Latina a partir do aterro de Seropédica (RJ), segue a mesma toada.
Abastece 100% da fábrica da Ambev em Cachoeiras de Macacu (RJ) desde 2022. Neste ano, renovou o acordo com a siderúrgica Ternium e assinou novos contratos. Vai fornecer biometano à fábrica Saint-Gobain em Queimados (RJ) e manter toda a frota do Grupo L’Oréal. O posto fica ao lado do Centro de Distribuição Gaia, no estado de São Paulo.
No agronegócio, o potencial é imenso, dada a posição do Brasil no setor, e os investimentos avançam.
"Granjas de aves e porcos, confinamento de gado, resíduo de culturas como cana, frutas e até mandioca são fontes importantes", explica Gabriel Kropsch, um dos fundadores e conselheiro da Abiogás.
Nesse segmento, o grupo Cosan tem sido especialmente ativo.
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