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Cada macaco no seu galho, mas cadê a árvore que estava aqui?

04/01/2024

As mudanças climáticas deixaram de ser um tema de ficção científica para se tornar uma realidade cotidiana: incêndios sem precedentes em lugares inusitados como o Canadá, a Europa inteira enfrentando ondas de calor, fogo e agora inundações. Os efeitos crescentes dessas mudanças, somados ao fenômeno de aquecimento da água do Oceano Pacífico, conhecido como El Niño, estão castigando o Brasil: seca histórica na Amazônia e, a região sul, que há pouco tempo estava fazendo racionamento de água, sofre com inundações.
As mudanças climáticas têm causado efeitos devastadores na economia. E a sociedade está muito longe de se adaptar ao novo normal, que ainda ninguém sabe como será. Os animais e as plantas também sofrem muito com as mudanças climáticas. Os incêndios e inundações são arrasadores; destroem o habitat e matam muitos animais, principalmente os filhotes. As colmeias de abelhas são destruídas pelo fogo, assim como os ninhos das aves e a vegetação.
Em ambientes como a Amazônia, onde as plantas evoluíram em ecossistemas geralmente muito úmidos, os incêndios e as secas prolongadas não representavam uma ameaça, e a maioria das plantas não apresentam adaptações para resistir a esses desastres. Isso significa que incêndios e secas extremas na floresta amazônica podem provocar a mortalidade de muitas árvores e suas plântulas.
Depois do fogo, vem a fome. A vegetação demora muito mais para se recuperar, dando espaço para espécies muitas vezes não nativas e invasoras. E os animais que sobreviveram ficam com a fonte de alimentação altamente comprometida. Os animais em risco de extinção são especialmente vulneráveis. Com poucos indivíduos, qualquer perda é preocupante, qualquer seca extrema ou incêndio em um pequeno fragmento florestal é uma catástrofe.
É o caso do sauim-de-coleira, um simpático macaquinho endêmico da região de Manaus, que está nas listas nacional e internacional de espécies ameaçadas de extinção e desempenha um papel importante no equilíbrio da fauna e flora da região, inclusive como propagador da vegetação nativa da própria floresta dispersando sementes. O Congresso da Sociedade Internacional de Primatologia (IPS) deste ano anunciou a entrada do sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) na lista dos 25 primatas mais ameaçados do planeta.
O crescimento da cidade de Manaus é o principal problema para o primata, que vê seu habitat natural desaparecer ou ser fragmentado, engolido pelo crescimento da metrópole, que por possuir mais de 2 milhões de habitantes, também acaba fazendo pressão sobre a área rural por demanda de alimentos, lazer, agricultura, abertura de estradas, extração de madeira, mineração e até mesmo ocupação imobiliária.
Com a ocupação humana e a redução e degradação dos remanescentes de vegetação nativa que ainda podemos encontrar dentro do perímetro urbano, o sauim é vítima de acidentes como atropelamentos e choques por contato com a fiação elétrica e acidentes com cães domésticos, ao tentarem se deslocar entre esses fragmentos de mata em busca de alimento ou reprodução.
Ao longo dos anos, surgiram diversas iniciativas pequenas, mas importantes para recuperar e conservar o habitat natural desses animais, como reservas naturais privadas criadas por empresas e pela população, e programas de preservação de instituições públicas.
A Universidade Federal do Amazonas (UFAM), por exemplo, tem um programa para preservar o sauim-de-coleira, que conta com a participação de ambientalistas, como do Projeto Água Vida tentando recuperar áreas degradadas e corredores ecológicos importantes para os grupos de sauins que ainda resistem, bem como implantando “passarelas” sobre ruas, estradas e avenidas, conectando as copas das árvores, para evitar os atropelamentos.
Também estão sendo realizadas inúmeras pesquisas que podem ajudar a conhecer melhor a ecologia da espécie, colaborando com as ações de conservação previstas no Plano de Ação Nacional do sauim-de-coleira do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Mas, para tirar o sauim-de-coleira da lista de animais mais ameaçados de extinção é preciso proteger com máxima eficiência os corredores ecológicos, principalmente ao longo dos cursos de água, o que exigiria um esforço considerável em todos os níveis do governo e da sociedade.

Fonte: CicloVivo

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