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Rosaldo, o passarinho romântico e persistente que ajuda cientistas brasileiros a entender as mudanças climáticas

19/12/2023

Todos os meses, durante quatro ou cinco dias, um grupo de cientistas brasileiros vive a vida de um passarinho.
Eles acordam cedo, antes de o sol raiar, e se embrenham por horas em pântanos lotados de capins altos e muitos insetos.
O objetivo da missão é um só: observar o bicudinho-do-brejo (Formicivora acutirostris), uma ave rara encontrada apenas em regiões específicas da Baía de Guaratuba, quase na divisa entre o Paraná e Santa Catarina.
Entre os mais de 60 indivíduos da espécie que são acompanhados de perto, um se tornou o queridinho da equipe de biólogos: Rosaldo, um macho de 16 anos, que é acompanhado pelos pesquisadores antes mesmo de nascer, quando ainda estava se desenvolvendo no ovo.
Essa década e meia de observação de um mesmo passarinho permitiu aos especialistas reunir uma série de dados sobre a história de vida dele.
Essas informações podem ajudar a entender as estratégias que a espécie adota para se adaptar e responder às mudanças climáticas — como o aumento do nível do mar ou a maior frequência de eventos extremos.
Chegou a hora, então, de conhecer a vida romântica e obstinada de Rosaldo.
O bicudinho-do-brejo era um completo desconhecido da ciência até o início da década de 1990.
"Em 1995, Bianca e eu fazíamos uma pesquisa de campo no brejo quando vi uma fêmea de uma espécie nova, que não conhecíamos. A Bianca não quis acreditar nessa possibilidade, pois era algo além da nossa realidade", relata o ornitólogo Marcos R. Bornschein, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
A Bianca citada pelo cientista é a bióloga, jornalista e conservacionista brasileira Bianca Luiza Reinert, que dedicou a carreira a conhecer o bicudinho-do-brejo. Ela morreu em 2018.
"Pouco depois, naquele mesmo dia de 1995, vimos outros dois indivíduos da nova espécie. A partir daí, começamos as pesquisas emergenciais para confirmar o achado e descrever as características principais dessa ave", complementa Bornschein.
Em pouco mais de dez anos de trabalho, os especialistas puderam confirmar que o bicudinho-do-brejo habita uma região bem restrita — o sul do Paraná e o nordeste de Santa Catarina.
O habitat dele se resume às áreas pantanosas, com capins altos, que ficam próximas da costa litorânea.
"O bicudinho tem o peso de um bombom", detalha a bióloga Giovana Sandretti-Silva, que coordena um projeto de conservação da espécie e faz parte do grupo de pesquisa de Bornschein.
"O macho é um pouco mais escuro e tem a barriga marrom. Já a fêmea possui uma barriga carijó, com penas brancas e pretas", diz ela.
A primeira década de pesquisa com o bicudinho-do-brejo também permitiu descobrir que esses pássaros são territorialistas e mantêm relacionamentos por longos períodos.
"O casal vive no mesmo lugar por vários anos, se alimenta de pequenos insetos ou caranguejos e usa os capins do brejo para fazer os ninhos", acrescenta Sandretti-Silva.
Segundo a bióloga, os bicudinhos geram dois ovos por ciclo reprodutivo — e, se bem-sucedidos, eles terão dois filhotinhos para cuidar por algumas semanas.
"Uma coisa interessante é que macho e fêmea dividem todas as tarefas. Juntos, eles constroem os ninhos, chocam os ovos, cuidam dos filhotes…", exemplifica ela.
Quando o filho cresce e consegue se virar sozinho, ele é expulso pelos próprios pais e precisa buscar um território próprio.
"Eles não têm muita autonomia de voo, então pulam de um capim para outro e vagam até achar um novo lugar", aponta Sandretti-Silva.

Saiba mais acessando o g1

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