
14/12/2023
"O coração da gente dói quando vamos visitar as vovozinhas, e elas pedem para a gente ligar para a Usiminas e pedir que diminuam o pó". É assim que Maria das Graças Ribeiro, 72, funcionária pública aposentada, resume os relatos que ouve ao fazer trabalho voluntário na área de assistência social no bairro Bela Vista, em Ipatinga, região leste de Minas Gerais.
O bairro da cidade no Vale do Aço é o mesmo em que mora há 45 anos. A reclamação das "vovozinhas" com as quais conversa durante sua jornada como voluntária é também a sua própria.
A queixa é feita por moradores de pelo menos quatro bairros do entorno da Usiminas, uma das principais siderúrgicas de Minas Gerais, inaugurada em Ipatinga há 67 anos.
A empresa afirma que vem seguindo todos os compromissos assumidos com o Ministério Público de Minas Gerais e com a comunidade de Ipatinga para a redução das emissões de partículas sedimentáveis.
O material a que os moradores se referem —e a empresa chama de partículas sedimentáveis— é mais conhecido na cidade como "pó preto". Ele sai da siderúrgica durante o processo de produção de aço. Habitantes de bairros próximos associam as emissões a câncer no pulmão, alergias e rinites.
O marido de Maria das Graças morreu de câncer de pulmão. Há ainda reclamações sobre a impossibilidade de manter as casas abertas e os gastos excessivos com limpeza.
Depois de 45 anos, há ainda, no caso de Maria da Graças, como relata, a sensação de que nada vai mudar. Também pensa assim o vice-presidente da Associação de Moradores do bairro Iguaçu, Adílson Marcelino da Cunha, 56.
"O povo não acredita mais que vai melhorar. Tem uma sensação de ´jogar a toalha´", afirma.
As declarações dos moradores, dadas ao promotor Rafael Pureza, constam em ação aberta pelo MP-MG (Ministério Público de Minas Gerais) contra a Usiminas em março deste ano com pedido de pagamento de indenização por quase sete décadas de lançamento de poluentes no ar de Ipatinga.
A ação do Ministério Público não faz parte de negociações entre a Promotoria e a Usiminas para redução da poluição, que são realizadas concomitantemente.
Em setembro de 2023, dentro da ação, a Justiça em Minas Gerais determinou o bloqueio de R$ 346 milhões da Usiminas, posicionamento que foi revertido depois de recurso da empresa.
Nas negociações para a redução da poluição na cidade ficou acertado, segundo o promotor Rafael Pureza, a contratação, com processo já iniciado, de consultoria independente para mostrar a relação do chamado "pó preto" com doenças.
"O impacto na qualidade de vida e no bem-estar já está comprovado. Saúde é um estado de completo bem-estar físico e mental. O ´pó preto´ altera o bem-estar das pessoas, tanto físico como mental, e até mesmo a forma com a qual as pessoas se relacionam socialmente", diz o promotor.
Saiba mais terminando de ler a reportagem clicando na Folha de S. Paulo
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