Botos-cinza em perigo: como a poluição e os portos encurralam a espécie símbolo do Rio de Janeiro

Símbolo da vida marítima da cidade, o boto-cinza (Sotalia guianensis) está estampado há 130 anos no brasão do Rio de Janeiro. A Baía de Sepetiba, no litoral sul, a 70 quilômetros do centro da cidade, já foi um santuário de águas calmas e fartura de peixes, o lar ideal para uma das maiores populações desses animais no mundo. Hoje, no entanto, a realidade é de uma guerra silenciosa por espaço.
Nossas pesquisas, desenvolvidas no Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha (ECoMAR-UFRJ), mostram que os botos de Sepetiba não estão apenas convivendo com o desenvolvimento humano, estão encurralados.
Monitoramos a região há mais de 20 anos e documentamos uma transformação drástica. A baía, que deveria funcionar como berçário e área de alimentação, tornou-se um campo minado de navios, redes de pesca e poluição.
As pesquisas mostram que a intensa atividade humana está empurrando essa população para um ponto de não retorno, repetindo os mesmos erros que assolam há décadas os botos-cinza da vizinha Baía de Guanabara.
O boto-cinza é um animal costeiro e não costuma ir para o mar aberto. Ele depende das baías e estuários para viver, reproduzir e se alimentar. O problema é que as atividades econômicas da região usam exatamente as mesmas áreas rasas e protegidas.
Em um estudo, que publicamos recentemente na revista Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems, identificamos que 90% das áreas adequadas para os botos em Sepetiba e na Ilha Grande se sobrepõem a atividades humanas intensas.
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